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sábado, 1 de dezembro de 2012

Maria Santíssima conduz os seus servos ao paraíso

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Por Santo Afonso Maria de Ligório
 
Qui me invenerit, inveniet vitam, et hauriet salutem a Domino  — «Aquele que me achar, achará a vida, e haverá do Senhor a salvação» (Prov 8, 35).
 
Sumário. De que serve inquietarmo-nos com as sentenças das escolas sobre a predestinação para a glória? Quem é verdadeiramente servo de Maria, está certo de que está escrito no livro da vida e se salvará; porque de todos aqueles que perseveraram na sua devoção a esta bem-aventurada Mãe, ninguém se perdeu. Só se condena aquele que não recorre a ela ou deixa de ser seu servo. Procuremos, portanto, entrar sempre mais e permanecer nesta arca da salvação; e cada vez que nos for possível, procuremos, por palavras e exemplos, fazer que outros também ali entrem.
 
Nossa Senhora Rainha
I. Oh! que belo sinal de predestinação têm os servos de Maria! A santa Igreja aplica a esta bem-aventurada Mãe as palavras da Sabedoria divina e lhe faz dizer: In omnibus requiem quaesivi et in haereditate Domini morabor (Eclo 24, 11) — «Em toda parte busquei repouso e morarei na herança do Senhor». A Santíssima Virgem, pelo amor que tem para com os homens, procura fazer que em todos reine a sua devoção. Muitos ou não a recebem, ou não a conservam; porém, bem-aventurado aquele que a recebe e a conserva, porque esta devoção habita em todos aqueles que são a herança do Senhor, isto é, que irão ao céu louvá-lo eternamente.
 
Qui audit me, non confundetur (Eclo 24, 30) — «Aquele que me ouve, não será confundido». De todos aqueles que recorreram a esta Rainha de misericórdia, nenhum ficou confundido. A experiência de todos os dias demonstra que aqueles que operam por ela, que a honram, e especialmente aqueles que com palavras e exemplos procuram que outros também a amem, nunca cairão em pecado e viverão eternamente. Numa palavra, diz Maria Santíssima: Aquele que me achar, achará a vida, e haverá do Senhor a salvação. Ao contrário, aquele que de mim se afastar, achará infalivelmente a morte; porque ficará privado daqueles socorros que não se dispensam aos homens senão pelo meu intermédio. — É assim que a santa Igreja, de acordo com todos os Doutores, faz a divina Mãe falar, para conforto dos seus servos. — De que serve, pois, inquietarmo-nos com as sentenças das Escolas, sobre se a predestinação para a glória é anterior ou posterior à previsão dos merecimentos? se estamos ou não escritos no livro da vida? Se formos verdadeiros servos de Maria, e alcançarmos a sua proteção, seguramente nele havemos de ser inscritos e nos salvaremos.
 
II. Santa Maria Madalena de Pazzi viu no meio do mar uma pequena nau, em que estavam embarcados todos os devotos de Maria, e ela, fazendo ofício de piloto, seguramente os conduzia ao porto do céu. Procuremos, pois, entrar nesta nau bem-aventurada da proteção de Maria, sejamos devotos verdadeiros da Virgem, pois assim estaremos seguros de alcançar o reino do céu.
 
Não nos contentemos com amar, só por nós, esta Senhora amabilíssima; mas sempre que nos for possível, em público ou em particular, esforcemo-nos para que ela seja também amada dos outros. Fazendo isso, exerceremos um apostolado mui frutuoso, pois que todos aqueles que por nosso intermédio abraçarem a devoção para com Maria Santíssima, serão depois os nossos eternos companheiros no céu.
 
Ó Rainha do paraíso, que assentada acima de todos os coros angélicos, ocupais o primeiro lugar junto do trono de Deus! do fundo deste vale de lágrimas, eu, miserável pecador, vos saúdo, e peço vos digneis volver para mim vossos olhos cheios de misericórdia. Vede, ó Maria, em que perigos me acho e acharei enquanto viver nesta terra, de perder minha alma, o paraíso e meu Deus. Em vós, ó minha Rainha, hei posto todas as minhas esperanças. Amo-vos, e suspiro pelo momento de vos ir ver e louvar no paraíso. Ah, Maria! quando chegará o dia em que me verei já salvo aos vossos pés? Quando beijarei essas mãos que me dispensaram tantas graças?
 
É verdade, ó minha Mãe, que muito ingrato vos tenho sido durante a minha vida; mas se chego ao paraíso, lá vos amarei a cada instante durante toda a eternidade, e repararei a minha ingratidão passada por bênçãos e ações de graças sem fim. A Deus agradeço por me dar esta confiança no sangue de Jesus Cristo e na vossa poderosa intercessão. Assim esperaram os vossos verdadeiros servos e nenhum foi frustrado na sua esperança. Também eu não o serei. — Ó Maria, suplicai a Jesus, vosso divino Filho, — assim como eu também o faço pelos merecimentos da sua Paixão, — que confirme e aumente sempre mais em mim estas esperanças. Amém. (*I 123)
 

Santo Afonso Maria de Ligório. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Terceiro: desde a duodécima semana depois de Pentecostes até ao fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p.331-334.
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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Para a salvação é necessário o sacrifício da vontade própria

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Por Santo Afonso Maria de Ligório
 
Qui facit voluntatem Patris mei, qui in coelis est, ipse intrabit in regnum coelorum — «O que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse entrará no reino dos céus» (Mat 7, 21)
 
Sumário. O que faz a vontade de Deus, entrará no céu;  o que não a faz, não entrará. Se portanto quisermos ser salvos, renunciemos à nossa vontade própria, e entregando-a sem reserva a Deus, digamos frequentes vezes cada dia: Senhor, ensinai-me a cumprir a vossa vontade santíssima; protesto não querer senão o que quereis Vós. Para que estejamos sempre dispostos a cumprir a vontade divina, é utilíssimo que desde de manhã nos representemos as contrariedades que nos possam suceder durante o dia.
 
I. O que faz a vontade de Deus, entrará no céu; o que não a faz, nele não entrará. Alguns fazem depender a sua salvação de certas devoções, de certas obras exteriores de piedade, e entretanto não cumprem a vontade de Deus. Jesus Cristo, porém, diz: «Não todos aqueles que me dizem: Senhor, Senhor, entrarão no reino dos céus; mas entrará somente o que faz a vontade de meu Pai» — Qui facit voluntatem Patris mei, qui in coelis est, intrabit in regnum coelorum.
 
Portanto, se nos quisermos salvar e chegar à união perfeita com Deus, habituemo-nos a rogar-lhe sempre com Davi: Doce me, Domine, facere voluntatem tuam (Sl 142, 10) — «Senhor, ensinai-nos a fazer a vossa santa vontade». Ao mesmo tempo desfaçamo-nos da vontade própria e entreguemo-la toda inteira e sem reserva a Deus. — Quando damos a Deus os nossos bens pela esmola, o alimento pelo jejum, o sangue pela disciplina, damos-lhe coisas nossas; mas quando lhe damos a vontade, damos-lhe a nossa própria pessoa. Eis porque o sacrifício da vontade própria é o sacrifício mais aceito que possamos fazer a Deus; e Deus enriquece de graças ao que o faz.
 
Porém, para que tal sacrifício seja perfeito, deve ter duas qualidades: deve ser feito sem reserva e constantemente. Alguns dão a Deus a sua vontade, mas com reserva, e semelhante dádiva pouco agrada a Deus. Outros dão a Deus a sua vontade, mas logo em seguida tornam a retomá-la, e estes se expõem a grande risco de serem abandonados de Deus. Por isso todos os nossos esforços, desejos e orações devem ser dirigidos ao fim de obtermos de Deus a perseverança em não queremos senão o que Deus quer. Habituemo-nos a antever desde de manhã, no tempo da meditação, as tribulações que nos passam suceder no correr do dia e a fazermos continuamente atos de resignação à vontade divina. diz São Gregório: Minus iacula feriunt, quae praevidentur — «São menos dolorosas as feridas antevistas».
 
II. Meu Jesus, cada vez que eu disser: Louvado seja Deus, ou Seja feita a vontade de Deus, tenho intenção de aceitar todas as vossas disposições a meu respeito, no tempo e na eternidade. — Só quero o emprego, a habitação, os vestuários, o nutrimento, a saúde que me tendes destinado. Se quereis que meus negócios não surtam feliz êxito, meus projetos se esvaeçam, meus processos se percam, tudo quanto possuo seja roubado, eu também o quero. Se quereis que eu seja desprezado, odiado, posposto aos outros, difamado e maltratado, até por aqueles a quem mais amo, eu também o quero. Se quereis que eu fique privado de tudo, banido de minha pátria, encerrado numa prisão, e viva em penas e angústias contínuas, eu também o quero. Se quereis que esteja sempre enfermo, coberto de chagas, estropiado, estendido sobre um leito, abandonado de todos, eu também o quero; tudo seja como Vos agradar e por quanto tempo quiserdes.
 
Minha vida mesma ponho nas vossas mãos, e aceito a morte que me destinais; aceito igualmente a morte de meus parentes e amigos e tudo o que quiserdes. Quero também tudo o que quereis no que diz respeito ao meu bem espiritual. Desejo Vos amar com todas as minhas forças nesta vida e ir Vos amar no paraíso como Vos amam os Serafins; mas contente fico com o que bem quiserdes conceder-me. Se não quereis dar-me senão um só grau de amor, graça e glória, não quero mais do que isto, porque Vós assim o quereis. Prefiro o cumprimento de vossa vontade a todos os bens.
 
Numa palavra, ó meu Deus, de mim e de tudo o que me pertence, disponde como for vossa vontade; com a minha não tenhais consideração alguma, pois só quero o que Vós quereis. Qualquer que seja o tratamento que me deis, amargo ou doce, agradável ou penoso, aceito-o e abraço-o, porque tanto um como outro me virá de vossa mão. — Aceito, meu Jesus, de maneira especial a morte que me espera e todas as penas que devem acompanhá-la, no lugar e momento que for da vossa vontade. Unindo-as à vossa santa morte, ó meu Salvador, Vo-las ofereço em testemunho de meu amor a Vós. Quero morrer para Vos agradar e cumprir vossa divina vontade. — Ó Maria, Mãe de Deus, obtende-me a santa perseverança. (*II 279)
 

Santo Afonso Maria de Ligório. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Terceiro: desde a duodécima semana depois de Pentecostes até ao fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p.215-217.
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terça-feira, 21 de agosto de 2012

Angústias da alma descuidada na hora da morte

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A morte do justo e do pecadorPor Santo Afonso Maria de Ligório
 
Cor durum male habebit in novissimo; et qui amat periculum, in illo peribit — «O coração endurecido será oprimido de males no fim da vida; e quem ama o perigo perecerá nele» (Eclo 3, 27).
 
Sumário. Ai do que resiste durante a vida aos convites de Deus! Desgraçado do que cai no leito com a alma em pecado, e dali passa à eternidade! O anúncio da morte já próxima, o pensamento de ter de deixar o mundo, as tentações do demônio, os remorsos da consciência, o tempo que já falta, o rigor da justiça divina e mil outras coisas produzirão uma perturbação tão horrível, que pela confusão do espírito a conversão será quase impossível. Meu irmão, para não morreres de morte tão triste, teme agora viver vida pecaminosa!
 
I. Presentemente os pecadores afastam a lembrança e o pensamento da morte, e assim procuram a paz na vida pecaminosa que levam, muito embora nunca a hajam de encontrar. Quando, porém, estiverem nas angústias da morte, próximos a entrar na eternidade: «ao sobrevir-lhes a angústia, buscarão a paz, e não haverá paz» — angustia superveniente, requirent pacem, et non erit (Ez 7, 25). Então não poderão escapar aos tormentos de sua má consciência. Procurarão a paz; mas que paz poderá encontrar uma alma, vendo-se carregada de pecados, que, como outras tantas víboras, a mordem por toda a parte? Que paz, em pensar que dentro de poucos instantes deve comparecer perante o Juiz, Jesus Cristo, cujas leis e amizade desprezou até então!
 
Conturbatio super conturbationem veniet (Ez 7, 26) — «A um susto sucederá outro susto». O anúncio já recebido da morte próxima, o pensamento de se dever separar de todas as coisas do mundo, as tentações do demônio, os remorsos da consciência, o tempo perdido, o tempo que falta, o rigor do juízo divino, a eternidade desgraçada reservada aos pecadores, todas estas coisas produzirão uma perturbação terrível, que lançará a confusão no espírito e aumentará a desconfiança. E é neste estado de confusão e de desconfiança que o moribundo passará à outra vida. — Com efeito, a experiência ensina que as almas desleixadas na hora da morte nem sabem responder às perguntas que o sacerdote faz, e se confundem. Assim muitas vezes o confessor lhes dá a absolvição, já não porque as julga bem dispostas, mas porque não há mais tempo a perder.
 
Se alguma vez se têm visto pecadores moribundos chorarem, fazerem promessas e pedir perdão a Deus, diz com razão um autor que, geralmente falando, tais promessas, lágrimas e orações são como as de um homem atacado pelo seu inimigo, que lhe põe o punhal sobre o coração e o ameaça de morte. — Desgraçado, pois, do que em vida se endurece e resiste aos apelos de Deus; desgraçado do que cai no leito com pecado mortal na alma, e dali passa à eternidade!
 
II. Meu irmão, se porventura tu também és uma daquelas almas que têm a consciência desmazelada, procura quanto antes remediar tão grave mal. Para não morreres má morte, teme viver má vida. Quem te dá a certeza de que não morrerás fulminado por um raio, de uma sufocação, de um ataque de apoplexia? E ainda que na morte tivesses tempo para te converter, quem te garante que deveras te converterás e farás uma boa confissão? Oh, quantos daqueles que se iludiram com a ideia de se converterem na hora da morte, estão agora ardendo no inferno!
 
Ó chagas de meu Jesus, vós sois minha esperança. Desperaria do perdão de meus pecados e da minha salvação eterna, se não erguesse os olhos para vós, fontes de misericórdia e de graça, pelas quais um Deus derramou todo o seu sangue, para lavar a minha alma de tantas faltas cometidas. Adoro-vos, ó chagas sagradas, e em vós confio. Detesto mil vezes e amaldiçoo os prazeres indignos, pelos quais causei desgosto a meu Redentor e perdi miseravelmente a sua amizade. Olhando para vós, avivam-se as minhas esperanças, e para vós dirijo os meus afetos.
 
Meu amado Jesus, mereceis que todos os homens Vos amem, e vos amem de todo o coração; e eu Vos ofendi tanto e tanto desprezei o vosso amor. Não obstante isso, Vós me tendes suportado e com tão grande piedade convidado ao perdão. Ah, meu Salvador, não permitais que Vos ofenda outra vez e que me condene. Que tormento seria para mim no inferno a vista de vosso sangue e de tantas misericórdias que me fizestes! Amo-Vos e sempre quero amar-Vos. Dai-me a santa perseverança. Desprendei o meu coração de todo o amor que não seja para Vós, e inspirai-me um verdadeiro desejo e a resolução de não amar de hoje em diante senão a Vós, ó meu soberano Bem! — Ó Maria, minha Mãe, atraí-me para Deus, e fazei que eu seja todo dele antes de morrer.
 
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Santo Afonso Maria de Ligório. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Terceiro: desde a duodécima semana depois de Pentecostes até ao fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p.27-30.
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terça-feira, 1 de novembro de 2011

Suspiros pela pátria celestial

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Por Santo Afonso Maria de Ligório
 
Sitivit anima mea ad Deum fortem vivum: quando veniam, et apparebo ante faciem Dei — «A minha alma está ardendo de sede pelo Deus forte e vivo; quando virei e aparecerei diante da face de Deus?» (Sl 41, 3).
 
I. Feliz daquele que se salva e, deixando este lugar de desterro, entra na Jerusalém celeste a gozar o dia que será sempre dia radiante; a ver-se livre de toda a angústia e de todo temor de não chegar àquela felicidade imensa! — Jacó dizia: Dies peregrinationis meae centum triginta annorum sunt, parvi et mali (Gen 47, 9) — «Os dias da minha peregrinação são cento e trinta anos, poucos e trabalhosos». É o que nós, infelizes peregrinos, também devemos dizer, pois que estamos neste mundo oprimidos pelos sofrimentos do nosso desterro, atribulados pelas misérias e sobretudo pelos perigos da nossa eterna salvação. De tudo isto devemos concluir que esta terra não é a nossa pátria, mas um lugar de desterro, no qual Deus nos colocou, para que pelo sofrimento mereçamos a dita de entrarmos um dia na pátria bem-aventurada.
 
Vivendo assim desapegados do mundo, devemos sempre suspirar pelo céu, dizendo: «Quando virei e aparecerei diante da face de Deus?» — Quando, Senhor, me verei livre de tantas angústias, e pensarei somente em vos amar e cantar os vossos louvores? Quando me sereis tudo em todas as coisas? Quando gozarei dessa paz sólida, isenta de aflições e de todo o perigo de me perder? Ó meu Deus, quando me verei todo absorto em vós, contemplando a vossa beleza infinita, face a face e sem véu? Quando enfim, Criador meu, quando terei a felicidade de Vos possuir de tal modo que eu possa dizer: Meu Deus, não tenho mais receio de Vos perder?
 
Meu Senhor, enquanto me virdes retido neste desterro e atribulado neste país inimigo, onde estou em guerras contínuas, socorrei-me com as vossas graças e consolai-me na minha penosa peregrinação. Não há nada neste mundo que me possa dar a paz e contentar-me; mas sem o vosso socorro, temo que os prazeres terrestres e as minhas propensões ilícitas me arrastem a algum precipício.
 
Vendo-me desterrado neste vale de lágrimas, quisera ao menos pensar sempre em Vós, meu Deus, e folgar com a vossa felicidade infinita; mas os desejos desordenados dos meus sentidos produzem tanto ruído em mim, e me perturbam tanto! Quisera empregar todas as faculdades da minha alma em Vos amar e render ações de graças; mas a carne me solicita para o gozo dos prazeres terrenos. Pelo que me vejo obrigado a clamar com São Paulo: «Infeliz de mim, quem me livrará deste corpo de morte?» (Rom 7, 24). Tenho de lutar sem cessar, não somente com os meus inimigos de fora, mas ainda comigo mesmo, a tal ponto que «me sinto cansado e sou pesado a mim mesmo» (Jó 7, 20).
 
II. Quem então me livrará deste corpo de morte, isto é, do perigo de cair no pecado, perigo que por si só é para mim uma morte contínua, tormento que não terminará senão com o meu último suspiro? Deus, ne elongeris a me; Deus meus, in auxilium meum respice (Sl 70, 12). Meu deus, não Vos separeis de mim, porque se Vos separais, tenho medo de Vos ofender; antes ficai bem perto de mim pelo vosso poderoso socorro, isto é, socorrei-me sempre, afim de que possa resistir aos assaltos dos meus inimigos. Vosso Profeta me assegura que estais perto daqueles que têm o coração aflito: Iuxta est Dominus iis, qui tribulato sunt corde (Sl 33, 19). Estai então continuamente ao meu lado, ó amadíssimo Senhor meu, e dai-me a paciência de que preciso para triunfar de tantos tédios que me acabrunham.
 
Quantas vezes me ponho em oração e pensamentos importunos me perturbam e distraem com mil futilidades! Dai-me força para os desviar, quando me quero entreter convosco, e para crucificar todas as más propensões que me impedem de me unir a Vós. Tirai de mim, eu Vo-lo suplico, a grande repugnância que sinto para abraçar em paz tudo o que não lisonjeia o meu amor próprio.
 
Ó morada do meu Deus, preparada para aqueles que o amam, desde esta miserável terra suspiro sem cessar por ti. Erravi sicut ovis quae periit; quaere servum tuum (Sl 118, 176). Amadíssimo Pastor, descido do céu para salvar as almas perdidas, aqui estou eu, uma dessas ovelhas que tiveram a desgraça de Vos voltar as costas e perder-se. Senhor, buscai-me; não me abandoneis como mereço; buscai-me e aliviai-me; tomai-me e ponde-me sobre os vosso ombros, para que não possa separar-me mais de Vós.
 
Ao mesmo tempo que aspiro ao céu, o inimigo da minha alma aterra-me pela lembrança das minhas faltas; mas, ó meu Jesus crucificado, a vossa vista me tranquiliza e faz esperar ir um dia amar-Vos, sem véu, no vosso feliz reino. Maria, augusta Rainha do paraíso, continuai a ser a minha advogada. Pelo sangue de Jesus Cristo e pela vossa intercessão, tenho a firme confiança de me salvar (II 314.)
 
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LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Terceiro: desde a duodécima semana depois de Pentecostes até ao fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 385-387.
 
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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Uma figura para meditar: Caminhos que conduzem ao Céu e ao Inferno (Versão colorida)

2 comentários:
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Prezados leitores, Salve Maria!

Estou postando a  mesma figura da postagem anterior, porém na versão colorida. Ela foi-me cedida gentilmente pelo leitor Rafael, do blog A Hora de Maria. As cores realçam o quadro! Magnífico!

Essa figura faz parte do Catecismo Ilustrado da Juventude de Lisboa, conforme informou-me o Sr. Edivaldo no post anterior.

Espero que tenham gostado desta versão colorida!

Fiquem com Deus!
Em Cristo, no amor de Maria Santíssima,
Melissa Bergonso
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Uma figura para meditar: Caminhos que conduzem ao Céu e ao Inferno

9 comentários:
Retirada do blog A Grande Guerra.
(Clique para ampliar)
Prezados leitores, Salve Maria!

Aqui trago uma bela figura para vocês meditarem sobre o caminho para o Céu e o caminho para o Inferno. Antigamente as figuras diziam muito, porém hoje, como tudo é "moderno", as imagens, figuras e símbolos quase não trazem beleza, muito menos significado.

Fiquem com Deus.
Em Cristo, no amor de Maria Santíssima,
Melissa Bergonso
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quarta-feira, 14 de julho de 2010

Temos de escolher entre uma eternidade feliz e outra infeliz

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Por Santo Afonso Maria de Ligório

Ante hominem vita et mors, bonum et malum; quod placuerit ei dabitur illi — «Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal; o que lhe agradar, isso lhe será dado» (Ecle. 15, 18).

Sumário. Deus quer certamente que todos os homens se salvem, mas não à força. Por isso Deus põe diante de nós dois caminhos a seguir, deixando a escolha a cada um. Mas, como poderá chegar ao céu quem quiser seguir o caminho do inferno? Avivemos a nossa fé; examinemos atentamente aonde nos leva o caminho trilhado até hoje, e tomemos desde já as providências para nos assegurar a salvação eterna. Deixemos, se for necessário, o mundo: São pequenas todas as cautelas, quando corre risco a eternidade.

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quinta-feira, 27 de maio de 2010

Maria Santíssima: Modelo de Castidade

Um comentário:
Por Santo Afonso Maria de Ligório

Sicut lilium inter spinas, sic amica mea inter filías - "Como é a açucena entre os espinhos, assim é a minha amiga entre as filhas" (Cant. 2, 2).

Sumário. A pureza da Santíssima Virgem foi tão grande, que o Verbo divino a elegeu para sua Mãe, afim de que servisse a todos de exemplo de castidade. Como recompensa da sua inefável virgindade, Maria tem o privilégio de preservar do pecado os seus devotos e de os levantar depois da queda. É necessário, porém, que da nossa parte ponhamos em prática os meios para vencer, especialmente o evitar as ocasiões, e praticar a oração, consagrando-nos à Virgem de manhã e à noite, e invocando o seu nome em cada assalto do inimigo infernal.

I. Depois da queda de Adão, e de os sentidos se haverem rebelado contra a razão, a virtude da castidade tornou-se a mais difícil de ser praticada. Mas, seja para sempre louvado o Senhor, que em Maria nos deu um grande modelo desta virtude. Diz o Bem-aventurado Alberto Magno que Maria é chamada com razão Virgem das virgens; pois que, sendo ela a primeira, sem conselho nem exemplo de ninguém, a oferecer a sua virgindade a Deus, deu ao mesmo Deus todas as virgens que depois a imitaram, segundo a profecia de Davi: Adducentur Regi virgines post eam (Salm. 44, 14) - "Serão apresentadas ao Rei virgens depois dela". E São Soprônio acrescenta que Deus escolheu esta Virgem puríssima por Mãe, exatamente para que ela servisse a todos de modelo de castidade. Pelo que Santo Ambrósio lhe dá o belo título de Porta-bandeira da virgindade.

Por motivo desta sua pureza foi a Santíssima Virgem chamada pelo Espírito Santo bela como a rola (Cant. 1, 9); como também açucena: sicut lilium inter spinas. E aqui adverte Dionísio Cartusiano, que ela foi chamada açucena entre os espinhos, porque todas as demais virgens foram espinhos para si próprias ou para os outros; Maria Santíssima, ao contrário, não o foi nem para si nem para os outros. Segundo observa Santo Tomás, a beleza de Maria inspirava a todos amor à pureza, e só ao ser vista, infundia pensamentos e afetos castíssimos.

Numa palavra, diz um autor que a Bem-aventurada Virgem foi tão amante desta virtude, que, para a conservar, estaria disposta a renunciar ainda à dignidade de Mãe de Deus. Isto se colige das mesmas palavras que dirigiu ao Arcanjo, e das que por fim acrescentou: Fiat mihi secundum verbum tuum (Luc. 1, 38) - "Faça-se em mim segundo a tua palavra"; significando que dava o seu consentimento porque o Anjo lhe assegurava que devia ser mãe unicamente por obra do Espírito Santo.

II. Os que são castos, tornam-se anjos, como já disse o Senhor: Erunt sicut angeli Dei (Mat. 22, 30) - "Eles serão como anjos de Deus". Mas os impuros fazem-se odiosos a Deus como os demônios. Quantos homens caem todos os dias no inferno por causa da impureza! Diz São Bernardo: "Este vício arrasta quase o mundo todo ao suplício" - Hoc peccatum quasi totum mundum trahit ad supplicium.

Como recompensa de sua pureza singular a Santíssima Virgem obteve de Jesus Cristo o privilégio de poder preservar os seus devotos desde vício, e de os erguer da queda, se por ventura viessem a cair. Ela quer, porém, que ponhamos em prática os meios de que ela mesma usou, posto que não tivesse necessidade disso. Estes meios são três: a mortificação dos sentidos, em particular da gula e da vista; a fuga das ocasiões e a oração.

Será sobretudo utilíssimo para a conservação da pureza, que tomemos o hábito tão louvável de rezar de manhã e à noite três Ave-Marias com o rosto em terra, de nos consagrarmos inteiramente a esta divina Mãe, de recorrer com confiança a ela nos momentos da tentação; de lhe recordar que somos seus filhos, e de repetir os dulcíssimos Nomes de Jesus e Maria, enquanto durar a tentação. Oh! quantas almas, que deviam estar no inferno, estão agora no céu por terem tomado este hábito tão salutar! E ao contrário, quantas almas, que atualmente estão ardendo no abismo, teriam sido grandes santos no céu, se tivessem seguido tão bela prática!

† "Ó minha Senhora e Mãe, eu me ofereço todo a vós, e como prova de minha devoção, vos consagro hoje os meus olhos, os meus ouvidos, a minha boca, o meu coração, todo o meu ser. E já que sou vosso, ó boa Mãe, guardai-me, defendei-me como coisa e propriedade vossa [1]. - Ó minha Senhora e Mãe, lembrai-vos de que sou vosso; salvai-me, defendei-me como propriedade vossa"[2]. (I 265)

[1] Indulgência de 100 dias, para quem reza de manhã e à noite uma Ave-Maria com esta oração.

[2] Indulgência de 40 dias nos momentos de tentação.

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LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Segundo: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 139-142.
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

O grito lancinante de uma alma » "A Carta do Além"

3 comentários:
Este texto que estou postando é muito interessante e de grande valia para nós, cristãos. É de interesse de todo cristão católico procurar saber aquilo que leva ao Céu e também, especialmente, o que deixa de levar.

Coloquei o texto na íntegra, pois a edição que eu tenho do texto não tem direitos autorais, então suponho que posso divulgá-lo sem problemas.

==*=*=*==

O autor da presente publicação, no original alemão, prefere conservar no anonimato, tanto a si como os demais personagens do acontecimento.

O escrito, entretanto, corre em prósperas edições, pelas mãos de leitores sempre mais numerosos. Não se pode lê-lo com indiferença ou só por curiosidade. Aos poucos a gente se vê, pessoalmente empenhado em uma valorização reflexa, a um tempo de juízo e de sentimento.



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