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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Um livro a recomendar: “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”

6 comentários:

Prezados, leitores! Salve Maria!

Hoje comecei a ler novamente este maravilhoso livrinho – digo livrinho porque é de bolso, pequeno, mas definitivamente grande no que tange à alma – e não poderia deixar de recomendá-lo aqui no blog. Para quem não conhece, ele é de autoria de São Luís Maria Grignion de Montfort, e é um livro de uma riqueza tão infinita que ele só pode colocar doçura nas almas daqueles que o lêem. Recomendo fortemente a leitura a todos os católicos e especialmente aos devotos da Santíssima Virgem Maria!

Para deixá-los com um pouquinho do sabor do céu, vou colocar aqui o prefácio do livro.

Fiquem com Deus!
Em Cristo, no amor de Maria Santíssima,
Melissa Bergonso

---*-*-*---

PREFÁCIO DO PADRE F. W. FABER

Foi em 1846 ou 1847, em São Wilfrido, que estudei pela primeira vez a vida e o espírito do venerável Grignion de Montfort. Hoje, mais de quinze anos depois, posso dizer que aqueles que o tomam por mestre, dificilmente acharão um santo ou um escritor ascético que mais lhes cative a inteligência por sua graça e seu espírito. Não o podemos ainda chamar santo; porém o processo de sua beatificação está tão propiciamente adiantado que não devemos ter muito que esperar para vê-lo colocado em nossos altares.

Poucos homens, no século XVIII, trazem em si mais fortemente gravados os sinais do homem da Providência, do que esse novo Elias, missionário do Espírito Santo e de Maria Santíssima. Toda a sua vida foi uma tal manifestação da santa loucura da cruz, que os seus biógrafos são concordes em classificá-lo com São Simeão Salus e São Felipe Néri. Clemente XI fé-lo missionário apostólico em França, para que ele empregasse a vida em combater o jansenismo, tão cheio de perigo para a salvação das almas. Será difícil achar, depois das epístolas dos apóstolos, palavras tão ardentes como as doze páginas da sua “Prece” pelos missionários de sua Companhia. Recomendo-a a todos os que encontram dificuldade em conservar, no meio de numerosas provações, o fogo primitivo do amor pela salvação das almas.

Grignion de Montfort era ao mesmo tempo perseguido e venerado em toda parte. A soma de seus trabalhos é, como a de Santo Antônio de Pádua, verdadeiramente incrível e inexplicável. Escreveu alguns trabalhos espirituais, que embora conhecidos há pouco tempo, já têm exercido influência notável na Igreja, e estão chamados a influência muito maior no futuro. Suas prédicas, seus escritos, sua conversação eram impregnados de profecias e de visões antecipadas das últimas eras da Igreja.

Novo São Vicente Ferrer, adianta-se, como se estivesse nos dias precursores do juízo final, e proclama-se portador, da parte de Deus, de uma mensagem autêntica: mais honra, conhecimento mais vasto, amor mais ardente a Maria Santíssima, e anuncia a união íntima que ela terá com o segundo advento de seu Filho.

Fundou duas Congregações religiosas, uma de homens, outra de mulheres, ambas muito prósperas. E, entretanto, morreu com 43 anos, em 1716, tendo apenas dezesseis anos de sacerdócio.

A 12 de maio de 1853, foi promulgado, em Roma, o decreto que declara os seus escritos isentos de todo erro que pudesse servir de obstáculo à sua canonização. Neste trabalho sobre a verdadeira devoção à Santíssima Virgem, escreveu ele estas palavras proféticas: “Vejo claramente no futuro animais frementes que se precipitam com furor para estraçalhar com os dentes diabólicos este pequeno escrito e aquele de quem se serviu o Espírito Santo para escrevê-lo; ou para sepultá-lo, ao menos, no silêncio de um armário, a fim de que não veja a luz”.

Apesar disso, prediz, ao mesmo tempo, a aparição e o sucesso do livro. Cumpriu-se tudo à risca. O autor morrera em 1716, e só em 1832 foi descoberto, como por acaso, este tratado, por um dos sacerdotes da sua Congregação, em Saint-Laurent-sur-Sèvre. O superior de então pôde atestar que o manuscrito era do venerável fundador e o autógrafo foi enviado a Roma a fim de ser examinado no processo de canonização.

Com certeza, os que vão ler este livro já amam a Deus e desejariam amá-lo ainda mais; todos desejam alguma coisa para a sua floria: a propagação de uma obra, a vinda de melhores tempos, o sucesso de uma devoção; um empregou durante anos todos os esforços para vencer um defeito particular e não o conseguiu; outro tem pedido com lágrimas a conversão de seus pais e amigos, e está admirado de que, apesar de suas lágrimas, tão poucos dentre eles se tenham convertido à fé; este se entristece por não ter bastante devoção; aquele se aflige por ter que carregar uma cruz que lhe parece muito pesada para a sua fraqueza, enquanto outro encontra no seio da família perturbações e infelicidades domésticas que lhe parecem incompatíveis com a obra de sua salvação; e para todas essas tristezas a oração parece trazer tão pouco alívio! Qual é, pois, o remédio que lhes falta? Qual o remédio indicado pelo próprio Deus? É, segundo as revelações dos santos, uma dilatação imensa da devoção à Santíssima virgem; mas, reflitamos bem, o imenso não admite restrições nem limites.

Aqui, na Inglaterra, Nossa Senhora não é bastante pregada e conhecida. A devoção que lhe consagram é fraca, escassa, mesquinha, transviada pelos escárnios da heresia. Dominada pelo respeito humano e pela prudência carnal, desejaria fazer da verdadeira Maria uma Maria tão pequena que os protestantes se pudessem sentir à vontade junto dela. Sua ignorância da teologia tira a Maria toda a vida e dignidade; ela não é, como deve ser, o caráter saliente da nossa religião; não tem fé em si mesma. E é por esta razão que Jesus não é amado, que os hereges não são convertidos, que a Igreja não é exaltada; almas que poderiam ser santas, desfalecem e degeneram; os sacramentos não são freqüentados como o deveriam ser; as almas não são evangelizadas com o entusiasmo do zelo apostólico; Jesus não é conhecido, porque Maria é deixada no esquecimento; perecem milhares de almas, porque Maria delas está distante. É esta sombra indigna e miserável, à qual ousamos dar o nome de devoção à Santíssima Virgem, que é a causa de todas estas misérias, de todos estes males, de todas estas omissões, de toda esta tibieza. Entretanto, segundo as revelações dos santos, quer Deus expressamente uma devoção mais vasta, mais extensa, mais sólida, uma devoção muito diferente da atual, para com sua Mãe santíssima. Sou de opinião que não há obra mais excelente, mais eficaz para se conseguir este fim, do que a simples propagação desta devoção particular do venerável Grignion de Montfort.

Basta apenas que uma pessoa experimente para si esta devoção; em breve, a surpresa que lhe causarão as graças que ela traz consigo, assim como as transformações que produzirá em sua alma, convencê-la-ão de sua eficácia, quase incrível aliás, como meio para conseguir a salvação das almas e a vinda do reino de Jesus Cristo! Oh! se Maria fosse ao menos conhecida, não haveria frieza para Jesus! Oh! se Maria fosse ao menos conhecida, quão mais admirável seria nossa fé, como seriam diferentes as nossas comunhões! Oh se Maria fosse ao menos conhecida, quanto mais felizes, mais santos, menos mundanos seríamos, como nos tornaríamos imagens vivas de Nosso Senhor e Salvador, seu diletíssimo e diviníssimo Filho!

Eu mesmo traduzi o tratado todo, o que me deu muito trabalho; e fui escrupulosamente fiel. Tomo ao mesmo tempo a liberdade de avisar o leitor de que com uma só leitura do livro não o poderá compreender a fundo. Acha-se neste livro, se assim ouso dizer, o sentimento de um não sei quê de inspirado e sobrenatural, que vai sempre em aumento, à medida que nos aprofundamos em seu estudo. Além disto, não se pode deixar de experimentar, depois de lê-lo repetidas vezes, que nele a novidade parece nunca envelhecer, a plenitude nunca diminuir, o fresco perfume e o fogo sensível da unção nunca se dissipar ou enfraquecer.

Digne-se o Espírito Santo, o divino Zelador de Jesus e de Maria, conceder uma nova bênção a esta obra na Inglaterra; queira ele consolar-nos dentro em breve com a canonização desse novo apóstolo e ardente missionário de sua Esposa diletíssima e imaculada, e mais ainda pelo pronto despontar dessa gloriosa era da Igreja que deve ser a gloriosa era de Maria.

F. W. FABER
Sacerdote do Oratório
No dia da apresentação de Nossa Senhora. 1862.

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Nota: São Luís de Maria Grignion de Montfort foi canonizado em 27 de julho de 1947, por Pio XII.

Bibliografia: MONTFORT, São Luís Maria Grignion de. Tratado da Vedadeira Devoção à Santíssima Virgem. 30ª. Edição. Petrópolis: Vozes, 1998, p. 9-16.

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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O Rosário, instrumento de salvação

4 comentários:
A Santíssima Virgem revelou ao Beato Alano que, quando São Domingos pregou o Rosário, pecadores endurecidos foram tocados e choraram amargamente seus crimes, e até crianças fizeram penitências incríveis.

O fervor foi tão grande, por toda a parte onde ele pregava, que os pecadores mudaram de vida e edificaram todo o mundo por suas penitências.

Se vós sentis vossa consciência carregada de pecados, tomai o Rosário e rezai uma parte dele em honra de alguns dos mistérios da vida, da paixão ou da glória de Jesus Cristo.

Convencei-vos de que, enquanto estiverdes meditando e honrando esses mistérios, no céu Ele mostrará suas chagas sagradas ao Pai, tomará a vossa defesa e obterá a contrição e o perdão dos vossos pecados. Ele mesmo disse um dia ao Beato Alano: “Se esses míseros pecadores rezassem freqüentemente o Rosário, participariam dos méritos da minha paixão e Eu, como seu advogado, aplacaria a Justiça divina”.

Nossa vida é uma guerra e uma tentação contínuas, na qual não temos que combater inimigos de carne e de sangue, mas as próprias potências do inferno.

Armai-vos, pois, com a arma de Deus que é o santo Rosário. Esmagareis assim a cabeça do demônio e permanecereis inabaláveis diante de todas as suas tentações.

É por isso que o Rosário, ainda que considerado materialmente, é terrível ao demônio, e os Santos dele se serviram para expulsá-lo dos corpos de possessos, como testemunham muitas narrativas.

O Beato Alano atesta que livrou grande número de possessos colocando o Rosário em seu pescoço.

Santo Agostinho assegura que não há exercício mais frutuoso e mais útil para a salvação do que pensar freqüentemente nos sofrimentos de Nosso Senhor.

Santo Alberto Magno, mestre de São Tomás, soube por revelação que a simples lembrança ou meditação da paixão de Jesus Cristo é mais meritória ao cristão do que jejuar a pão e água todas as sextas-feiras de um ano inteiro, ou tomar a disciplina até o sangue todas as semanas, ou recitar todos os dias os cento e cinqüenta Salmos.

Ah! qual não será, em conseqüência, o mérito do Rosário que rememora toda a vida e paixão de Nosso Senhor?

A Virgem revelou ao Beato Alano que, depois do Santo Sacrifício da Missa, não há devoção mais excelente e mais meritória do que o Rosário, que é como que um segundo memorial e representação da vida e da paixão de Jesus Cristo.

O Padre Dorland conta que a Santíssima Virgem declarou ao venerável Domingos, cartuxo devoto do santo Rosário, que residia em Trèves no ano de 1481, que “todas as vezes que um fiel recita o Rosário com as meditações dos mistérios da vida e da paixão de Jesus Cristo em estado de graça, ele obtém plena e inteira remissão de todos os seus pecados”.

Ao Beato Alano, Ela disse: “Grande quantidade de indulgências foram concedidas ao meu Rosário, mas fica sabendo que Eu acrescentarei ainda muitas mais, aos que rezarem o terço em estado de graça, de joelhos e devotamente. E a quem nas mesmas condições perseverar nessa devoção, Eu lhe obterei no fim da vida, como recompensa por esse bom serviço, a plena remissão da pena e da culpa de todos os seus pecados”.

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MONTFORT, Luís Maria Grignion de. A eficácia maravilhosa do Santo Rosário. São Paulo: Artpress, 2000, p. 34-36.
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sábado, 28 de agosto de 2010

As origens do Rosário

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O santo Rosário, na forma como é rezado presentemente, foi inspirado à Igreja, e dado pela Santíssima Virgem a São Domingos, no ano de 1214, para converter os hereges albigenses e os pecadores, conforme relatou o Beato Alano de la Roche.

São Domingos, vendo que os pecados dos homens impediam a conversão dos hereges albigenses, entrou numa floresta próxima a Toulouse e lá passou três dias e três noites em contínua oração e penitência.

Para acalmar a cólera de Deus, não cessava de gemer, de chorar e de macerar o corpo com golpes de disciplina, a ponto de cair esgotado.

A Virgem então lhe apareceu, acompanhada de três princesas do céu, e lhe disse: “Se querer ganhar para Deus esses corações endurecidos, prega o meu Rosário”.

O Santo se levantou consoladíssimo e, ardendo de zelo pela salvação das almas, entrou na catedral; imediatamente os sinos foram tocados por Anjos para reunir os habitantes.

No começo da pregação houve uma tempestade espantosa; a terra tremeu, o sol se obscureceu, trovões e relâmpagos repetidos fizeram estremecer e empalidecer os ouvintes. Seu terror aumentou ainda mais quando viram uma imagem da Virgem, exposta em lugar de destaque, erguer os braços três vezes para o céu para pedir vingança a Deus contra eles, se não se convertessem e não recorressem à proteção da Mãe de Deus.

O Céu queria, com esses prodígios, promover a nova devoção do Rosário e torná-la mais conhecida.

A tempestade cessou afinal, pelas orações de São Domingos. Este prosseguiu a pregação e explicou com tanto fervor e entusiasmo a excelência do santo Rosário, que quase todos os habitantes de Toulouse o adotaram e renunciaram a seus erros. Em pouco tempo notou-se uma grande mudança nos costumes e na vida da cidade.

O estabelecimento do Rosário dessa forma prodigiosa que faz recordar o modo como Deus promulgou sua Lei no Monte Sinai, torna manifesta a excelência dessa devoção.

São Domingos, inspirado pelo Espírito Santo, instruído pela Santíssima Virgem e por sua própria experiência, pregou o Rosário todo o resto de sua vida. Pregou-o pelo exemplo e pela palavra, nas cidades e nos campos, diante dos grandes e dos pequenos, diante dos sábios e dos ignorantes, dos católicos e dos hereges.

Enquanto os pregadores difundiram, a exemplo de São Domingos, o santo Rosário, a piedade e o fervor floresceram nas Ordens religiosas que praticavam essa devoção e no mundo cristão em geral. Mas, quando se negligenciou um tal presente vindo do céu, pecados e desordens se viram por toda a parte.

A devoção do Rosário se conservou fervorosa até cerca de cem anos após sua instituição. Depois, esteve quase sepultada no esquecimento. A malícia e a inveja do demônio com certeza contribuíram para tal esquecimento, e para que assim cessasse o fluxo das graças que o Rosário trazia para o mundo.

A Justiça divina castigou os reinos da Europa, a partir do ano de 1349, com a mais terrível peste que jamais se vira. Surgida no Oriente, espalhou-se pela Itália, Alemanha, França, Polônia, Hungria, e devastou todas essas terras, de modo que de cem homens somente um sobrevivia. As cidades, as aldeias e os mosteiros se despovoaram durante os três anos que durou a epidemia. E a esse flagelo de Deus ainda se seguiram outros.

Quando pela misericórdia de Deus tais misérias cessaram, a Virgem ordenou ao Beato Alano de la Roche, célebre doutor e famoso pregador da Ordem dominicana, que restabelecesse a antiga Confraria do Santo Rosário.

Desde o estabelecimento do Rosário por São Domingos, até 1460, quando o Beato Alano o restabeleceu por ordem do Céu, ele foi chamado o Saltério de Jesus e da Virgem, porque contém 150 Ave-Marias – o mesmo número dos Salmos de Davi.

Depois disso a voz pública, que é a voz de Deus, lhe deu o nome de Rosário, que significa coroa de rosas. A Santíssima Virgem aprovou e confirmou esse nome, revelando a várias pessoas que elas Lhe ofereciam tantas rosas agradáveis quantas Ave-Marias, e tantas coroas de rosas quantos rosários rezassem.

[...]

O Rosário é, pois, uma grande coroa e o terço é um diadema, ou uma pequena coroa de rosas celestes que se põe sobre a cabeça de Jesus e Maria.

Não é possível exprimir como a Virgem estima o Rosário acima de todas as devoções e quanto Ela é generosa em recompensar os que trabalham por pregá-lo e difundi-lo; e, pelo contrário, como Ela é terrível contra os que se opõem a ele.

Enquanto viveu, São Domingos acima de tudo teve empenho em louvar a Santíssima Virgem, pregar suas grandezas e incentivar todas as pessoas a honrá-La por meio do Rosário.

Em contrapartida, a poderosa Rainha do Céu não cessou de espargir abundantes bênçãos sobre o Santo, e coroou seus trabalhos com prodígios e milagres. Nunca ele pediu alguma coisa a Deus pela intercessão da Virgem sem ser atendido. Como cúmulo de favores, Ela o tornou vitorioso sobre a heresia dos albigenses e o fez Pai e Patriarca de uma grande Ordem religiosa.

A Virgem não somente favorece os pregadores do Rosário, mas também recompensa os que pelo exemplo atraem outros a essa devoção.

[...]

Ainda que a devoção do Rosário tenha sido autorizada pelo Céu por meio de muitos prodígios e tenha sido aprovada pela Igreja por diversas bulas de Papas, sempre se encontram depravados, ímpios e “espíritos fortes” que procuram desacreditá-la, ou pelo menos afastar dela os fiéis.

É fácil reconhecer que suas línguas são infectadas pelo veneno do inferno e que eles são conduzidos pelo espírito maligno; pois ninguém pode desaprovar o santo Rosário sem que condene o que há de mais piedoso na religião cristã, a saber, o Pai Nosso, a Ave-Maria, os mistérios da vida, da morte e da glória de Jesus Cristo e de sua santa Mãe.

Se São Boaventura teve razão em dizer que morrerá no pecado e será condenado aquele que tiver desprezado a Santíssima Virgem, que castigos não devem esperar aqueles que afastam os outros de sua devoção?...

[...]

Toda a gente sabe que há três espécies de fé para as diversas narrativas. Às histórias narradas na Escritura sagrada, devemos uma fé divina; às histórias profanas que não repugnam à razão e são escritas por bons autores, devemos uma fé humana; e às histórias piedosas contadas por bons autores e em nada contrárias à razão, à fé e aos bons costumes, ainda que elas sejam por vezes extraordinárias, devemos uma fé piedosa.

Não se deve ser nem crédulo demais nem crítico demais; é preciso manter o equilíbrio para dessa forma encontrar o ponto da verdade e da virtude. Mas assim como a caridade crê facilmente em tudo o que não é contrário à fé nem aos bons costumes, assim também o orgulho leva a negar quase todas as narrativas bem confirmadas, sob o pretexto de que elas não estão na Escritura.

É esse um artifício de satanás, no qual caíram os hereges que negam a Tradição, e no qual caem sem se dar conta os críticos de hoje, que movidos unicamente por orgulho e auto-suficiência não crêem no que não compreendem ou no que lhes desagrada.

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MONTFORT, Luís Maria Grignion de. A eficácia maravilhosa do Santo Rosário. São Paulo: Artpress, 2000, p. 8-16.

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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O Santo Rosário

4 comentários:
O Rosário é uma devoção que está presente em minha vida há muito tempo. Primeiramente, porque o rezava com meus pais e irmãs, e segundo, porque é uma devoção particular minha. 

Não há palavras para expressar o quanto essa devoção é valiosa e o quanto ela tem me ajudado em todos os momentos da minha vida, especialmente nos momentos de maior provação. 

Por todo o amor com que Nossa Senhora sempre me envolveu, por todas as graças que Nossa Senhora já me alcançou e por todos os frutos que essa devoção já produziu, não só em minha vida, mas na vida da minha família e de tantas outras pessoas que eu conheço, é que eu quero divulgar a devoção do Santo Rosário; é minha gratidão para com nossa Mãe do Céu.

Segue abaixo trechos extraídos do livro “A eficácia maravilhosa do Santo Rosário”, de São Luís Maria Grignion de Montfort.

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A Virgem revelou ao Beato Alano de la Roche que, depois do Santo Sacrifício da Missa, não há devoção mais excelente e mais meritória do que o Rosário, que é como que um segundo memorial e representação da vida e da paixão de Jesus Cristo.

Leitor caríssimo, se puserdes em prática essa devoção aprendereis, por experiência própria melhor do que em qualquer livro, e comprovareis felizmente o efeito maravilhoso das promessas que a Santíssima Virgem fez a todos os que se empenhem em fazer florescer essa devoção que lhe é tão grata.

Para não me alongar demais, basta dizer que o Rosário é um manancial e depósito de toda a espécie de bens, no qual:

1º. Os pecadores obtêm perdão;
2º. As almas sedentas saciam a sede;
3º. Os prisioneiros vêem seus grilhões quebrados;
4º. Os que choram encontram alegria;
5º. Os tentados encontram tranqüilidade;
6º. Os indigentes recebem socorro;
7º. Os religiosos são reformados;
8º. Os ignorantes são instruídos;
9º. Os vivos triunfam sobre a vaidade;
10º. Os mortos são aliviados à maneira de sufrágio.

Para ainda mais vos animar à prática dessa devoção, acrescento que o Rosário rezado com a meditação dos mistérios:

1º. Nos eleva insensivelmente ao conhecimento perfeito de Jesus Cristo;
2º. Purifica as nossas almas do pecado;
3º. Nos torna vitoriosos sobre todos os nossos inimigos;
4º. Nos torna fácil a prática das virtudes;
5º. Nos abrasa do amor de Jesus Cristo;
6º. Nos enriquece de graças e méritos;
7º. Nos fornece o com que pagar todas as nossas dívidas a Deus e aos homens, e, por fim, nos faz obter de Deus toda espécie de graças.

Entre as coisas admiráveis que a Santíssima Virgem revelou ao Beato Alano de la Roche, há três mais notáveis:

A primeira: é um sinal provável e próximo de condenação eterna ter negligência, tibieza e aversão pela Saudação Angélica que reparou o mundo;

A segunda: aqueles que têm devoção a essa saudação divina possuem um grandíssimo sinal de predestinação;

A terceira: aqueles que receberam do Céu o favor de amar a Santíssima Virgem e de A servir por amor, devem ser extremamente zelosos em continuar a amá-La e servi-La, até que Ela os coloque no Paraíso, por meio de seu Filho, no grau de glória compatível com seus méritos.

Todos os hereges – que são filhos do demônio e portam sinais evidentes de reprovação – tem horror à Ave Maria. Eles ainda aprendem o Pai Nosso, mas não a Ave Maria; eles antes prefeririam levar consigo uma serpente do que um terço ou um Rosário.

Entre os católicos, aqueles que levam a marca da condenação também desprezam o Rosário, deixando de rezá-lo, ou fazendo-o com tibieza e às pressas. Ainda que eu não acreditasse no que foi revelado ao Beato Alano, bastaria a minha experiência pessoal para me convencer dessa verdade.

De fato, vemos que as pessoas que em nossos dias professam doutrinas novas condenadas pela Igreja descuidam muito, apesar das aparências de piedade, da devoção ao Rosário, e frequentemente a afastam do espírito e do coração dos outros, alegando os mais variados pretextos. Elas evitam condenar abertamente, como o fazem os calvinistas, o terço, o Rosário, o escapulário; mas a maneira como se portam em relação a essas coisas é tanto mais perniciosa quanto mais sutil.

Quem rezar fiel e devotamente, até o fim da vida, ainda que seja grande pecador, pode crer que receberá uma “coroa de glória que jamais fenecerá” (Pe 5, 4).

Ainda que estivésseis na beira do abismo, ainda que já tivésseis um pé no inferno, ainda que tivésseis vendido vossa alma ao demônio, ainda que fôsseis um herege empedernido e obstinado, vós vos converteríeis mais cedo ou mais tarde e vos salvaríeis – desde que (notai bem minhas palavras) rezásseis todos os dias o santo Rosário, devotamente, até à morte, para conhecer a verdade e obter a contrição e o perdão de vossos pecados.

Que todos, os sábios e os ignorantes, os justos e os pecadores, os grandes e os pequenos, louvem e saúdem, dia e noite, a Jesus e Maria pelo santo Rosário.

Rezai todos os dias, com devoção, pelo menos um terço do Rosário; e estareis oferecendo uma coroa de rosas a Jesus e Maria.

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Trechos extraídos e adaptados da seguinte bibliografia:
MONTFORT, Luís Maria Grignion de. A eficácia maravilhosa do Santo Rosário. São Paulo: Artpress, 2000.

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segunda-feira, 14 de junho de 2010

Para meditar...

2 comentários:
"Os pecados que levam mais almas para o Inferno são os pecados da carne. Hão de vir umas modas que hão de ofender muito a Nosso Senhor. As pessoas que servem a Deus não devem andar com a moda. A Igreja não tem modas. Nosso Senhor é sempre o mesmo". (Jacinta Marto, vidente de Fátima)

"Certos homens odeiam a verdade, por amor daquilo que eles tomaram por verdadeiro!". (Santo Agostinho, Confissões, Livro X, Cap. XXIII)

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terça-feira, 1 de junho de 2010

Devoção à Santíssima Virgem: Introdução

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Luís Maria Grignion de Montfort

1. Foi por intermédio da Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por meio dela que ele deve reinar no mundo.

2. Toda a sua vida Maria permaneceu oculta; por isso o Espírito Santo e a Igreja a chamam Alma Mater – Mãe escondida e secreta[1].  Tão profunda era a sua humildade, que, para ela, o atrativo mais poderoso, mais constante era esconder-se de si mesma e de toda criatura, para ser conhecida somente de Deus.

3. Para atender aos pedidos que ela lhe fez de escondê-la, empobrecê-la e humilhá-la, Deus providenciou para que oculta ela permanecesse em seu nascimento, em sua vida, em seus mistérios, em sua ressurreição e assunção, passando despercebida aos olhos de quase toda criatura humana. Seus próprios parentes não a conheciam; e os anjos perguntavam muitas vezes uns aos outros: Quae est ista?... – Quem é esta? (Cant. 3, 6; 8, 5) pois que o Altíssimo lha escondia; ou, se algo lhes desvendava a respeito, muito mais, infinitamente, lhes ocultava.

4. Deus Pai consentiu que jamais em sua vida ela fizesse algum milagre, pelo menos um milagre visível e retumbante, conquanto lhe tivesse outorgado o poder de fazê-los. Deus Filho consentiu que ela não falasse, se bem que lhe houvesse comunicado a sabedoria divina. Deus Espírito Santo consentiu que os apóstolos e evangelistas a ela mal se referissem, e apenas no que fosse necessário para manifestar Jesus Cristo. E, no entanto, ela era a Esposa do Espírito Santo.

5. Maria é a obra-prima por excelência do Altíssimo, cujo conhecimento[2] e domínio ele reservou para si. Maria é a Mãe admirável do Filho, a quem aprouve humilhá-la e ocultá-la durante a vida para lhe favorecer a humildade, tratando-a de mulher – mulier (Jo. 2, 4; 19, 26), como a uma estrangeira, conquanto em seu Coração a estimasse e amasse mais que todos os anjos e homens. Maria é a fonte selada (Ct. 4, 12) e a esposa fiel do Espírito Santo, onde só ele pode penetrar. Maria é o santuário, o repouso da Santíssima Trindade, em que Deus está mais magnífica e divinamente que em qualquer outro lugar do universo, sem excetuar seu trono sobre os querubins e serafins; e criatura alguma, pura que seja, pode aí penetrar sem um grande privilégio.

6. Digo com os santos: Maria Santíssima é o paraíso terrestre[3] do novo Adão, no qual este se encarnou por obra do Espírito Santo, para aí operar maravilhas incompreensíveis. É o grande, o divino mundo de Deus[4], onde há belezas e tesouros inefáveis. É a magnificência de Deus[5], em que ele escondeu, como em seu seio, seu Filho único, e nele tudo que há de mais excelente e mais precioso. Oh! que grandes coisas e escondidas Deus todo-poderoso realizou nesta criatura admirável, di-lo ela mesma, como obrigada, apesar de sua humildade profunda: Fecit mihi magna qui potens est (Lc. 1, 49). O mundo desconhece essas coisas porque é inapto e indigno.

7. Os santos disseram coisas admiráveis desta cidade santa de Deus; e nunca foram tão eloqüentes nem mais felizes, - eles o confessam – que ao tomá-la como tema de suas palavras e de seus escritos. E, depois proclama que é impossível perceber a altura dos seus méritos, que ela elevou até ao trono da Divindade; que a largura de sua caridade, mais extensa que a terra, não se pode medir; que está além de toda compreensão a grandeza do poder que ela exerce sobre o próprio Deus; e, enfim, que a profundeza de sua humildade e de todas as suas virtudes e graças são um abismo impossível de sondar. Ó altura incompreensível! Ó largura inefável! Ó grandeza incomensurável! Ó abismo insondável!

8. Todos os dias, dum extremo da terra ao outro, no mais alto dos céus, no mais profundo dos abismos, tudo prega, tudo exalta a incomparável Maria. Os nove coros de anjos, os homens de todas as idades, condições e religiões, os bons e os maus, os próprios demônios são obrigados, de bom ou mau grado, pela força da verdade, proclamá-la bem-aventurada. Vibra nos céus, como diz São Boaventura, o clamor incessante dos anjos: Sancta, sancta, sancta Maria, Dei Genetrix et Virgo; e milhões e milhões de vezes, todos os dias, eles lhe dirigem a saudação angélica: Ave Maria..., prosternando-se diante dela e pedindo-lhe a graça de honrá-los com suas ordens. E a todos se avantaja o príncipe da corte celeste, São Miguel, que é o mais zeloso em render-lhe e procurar toda sorte de homenagens, sempre atento, para ter a honra de, à sua palavra, prestar um serviço a algum dos seus servidores.

9. Toda a terra está cheia de sua glória, particularmente entre os cristãos, que a tomam como padroeira e protetora em muitos países, províncias, dioceses e cidades. Inúmeras catedrais são consagradas sob a invocação do seu nome. Igreja alguma se encontra sem um altar em sua honra; não há região ou país que não possua alguma de suas imagens milagrosas, junto das quais todos os males são curados e se obtêm todos os bens. Quantas confrarias e congregações erigidas em sua honra! Quantos institutos e ordens religiosas abrigados sob seu nome e proteção! Quantos irmãos e irmãs de todas as confrarias, e quantos religiosos e religiosas a entoar os seus louvores, a anunciar as suas maravilhas! Não há criancinha que, balbuciando a Ave-Maria, não a louve; mesmo os pecadores, os mais empedernidos, conservam sempre uma centelha de confiança em Maria. Dos próprios demônios no inferno, não há um que não a respeite, embora temendo.

10. Depois disto é preciso dizer, em verdade, com os santos:

De Maria nunquam satis... Ainda não se louvou, exaltou, honrou, amou e serviu suficientemente a Maria, pois muito mais louvor, respeito, amor e serviço ela merece.

11. É preciso dizer, ainda, com o Espírito Santo: Omnia gloria eius filiae Regis ab intus – Toda a glória da Filhado Rei está no interior (Sl. 44. 14), como se toda a glória exterior, que lhe dão, a porfia, o céu e a terra, nada fosse em comparação daquela que ela recebe no interior, da parte do Criador, e que desconhecem as fracas criaturas, incapazes de penetrar o segredo dos segredos do Rei.

12. Devemos, portanto, exclamar com o apóstolo: Nec oculus vidit, nec auris audivit, nec in cor hominis ascendit (1 Cor. 2, 9) – os olhos não viram, o ouvido não ouviu, nem o coração do homem compreendeu as belezas, as grandezas e excelências de Maria, o milagre dos milagres da graça[6], da natureza e da glória. Se quiserdes compreender a Mãe – diz um santo – compreendei o Filho. Ela é uma digna Mãe de Deus: Hic taceat omnis lingua – Toda língua aqui emudeça.

13. Meu coração ditou tudo o que acabo de escrever com especial alegria, para demonstrar que Maria Santíssima tem sido, até aqui, desconhecida[7], e que é esta uma das razões por que Jesus Cristo não é conhecido como deve ser. Quando, portanto, e é certo, o conhecimento e o reino de Jesus Cristo tomarem o mundo, será como uma conseqüência necessária do conhecimento e do reino da Santíssima Virgem Maria. Ela o deu ao mundo a primeira vez, e também, da segunda, o fará resplandecer.

[1] Antífona à Santíssima Virgem para o tempo do Natal; hino “Ave Maris Stella”.
[2] ... ut soli Deo cognoscenda reservetur (São Bernardino de Sena, sermão 51, art. 1, cap. 1).
[3] Rationalis secundi Adam paradisus. São Leão Grande (Serm. De Annuntiatione).
[4] Mundus specialissimus altissimi Dei (São Bernardo)
[5] Magnificentia Dei. Ricardo de São Lourenço (De laud. Virg., lib. IV).
[6] Miraculum miraculorum (São João Damasceno, Oratio I de Nativitate B. V.)
[7] No sentido de: conhecida insuficientemente, como se depreende de todo este parágrafo e da expressão: “Jesus Cristo não é conhecido como deve ser”.

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MONTFORT, Luís Maria Grignion de. Tratado da Vedadeira Devoção à Santíssima Virgem.  Petrópolis: Vozes, 1998, p. 17-24.

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sábado, 22 de maio de 2010

Deus quer servir-se de Maria na Santificação das Almas

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Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem
Segundo Princípio:
Deus quer servir-se de Maria na Santificação das Almas

22. A conduta das três pessoas da Santíssima Trindade, na encarnação e na primeira vinda de Jesus Cristo, é a mesma de todos os dias, de um modo visível, na Igreja, e esse procedimento há de perdurar até à consumação dos séculos, na última vinda de Cristo.

23. Deus Pai ajuntou todas as águas e denominou-as mar; reuniu todas as suas graças e chamou-as Maria [1]. Este grande Deus tem um tesouro, um depósito riquíssimo, onde encerrou tudo que há de belo, brilhante, raro e precioso, até seu próprio Filho; e este tesouro imenso é Maria, que os anjos chamam o tesouro do Senhor [2] e de cuja plenitude os homens se enriquecem.

24. Deus Filho comunicou à sua Mãe tudo que adquiriu por sua vida e morte: seus méritos infinitos e suas virtudes admiráveis. Fê-la tesoureira de tudo que seu Pai lhe deu em herança; é por ela que ele aplica seus méritos aos membros do corpo místico, que comunica suas virtudes, e distribui suas graças; é ela o canal misterioso, o aqueduto, pelo qual passam abundante e docemente suas misericórdias.

25. Deus Espírito Santo comunicou a Maria, sua fiel esposa, seus dons inefáveis, escolhendo-a para dispensadora de tudo que ele possui. Deste modo ela distribui seus dons e suas graças a quem quer, quanto quer, como quer e quando quer, e dom nenhum é concedido aos homens, que não passe por suas mãos virginais. Tal é a vontade de Deus, que tudo tenhamos por Maria e assim será enriquecida, elevada e honrada pelo Altíssimo, aquela que, em toda a vida, quis ser pobre, humilde e escondida até ao nada. Eis a opinião da Igreja e dos Santos Padres. [3]

26. Se eu me dirigisse aos espíritos fortes desta época, tudo isso, que digo simplesmente, poderia prová-lo pela Sagrada Escritura, pelos Santos Padres, citando longas passagens em latim e aduzindo os mais fortes argumentos, que o padre Poiré deduz e desenvolve em sua "Tríplice coroa da Santíssima Virgem". Falo, porém, aos pobre e aos simples que, por serem de boa vontade e terem mais fé que a maior parte dos sábios, crêem com mais simplicidade e mérito, e, portanto, contento-me de lhes dizer simplesmente a verdade, sem me preocupar em citar todos os textos latinos embora mencione alguns, mas sem os rebuscar muito. Continuemos.

27. Pois que a graça aperfeiçoa a natureza e a glória aperfeiçoa a graça, é certo que Nosso Senhor continua a ser, no céu, tão Filho de Maria, como o foi na terra. Por conseguinte, ele conserva a submissão e obediência do mais perfeito dos filhos para com a melhor das mães. Cuidemos, porém, de não atribuir a essa dependência o menor abaixamento ou imperfeição de Jesus Cristo. Maria está infinitamente abaixo de seu Filho, que é Deus, e, portanto, não lhe dá ordens como uma mãe terrestre as dá a seu filho. Maria, porque está toda transformada em Deus pela graça e pela glória que, em Deus, transforma todos os santos, não pede, não quer, não faz a menor coisa contrário à eterna e imutável vontade de Deus. Quando se lê, portanto, nos escritos de São Bernardo, São Bernardino, São Boaventura, etc., que no céu e na terra tudo, o próprio Deus, está submisso à Santíssima Virgem [4], deve-se entender que a autoridade, que Deus espontaneamente lhe conferiu, é tão grande que ela parece ter o mesmo poder que Deus, e que suas preces e rogos são tão eficazes que se podem tomar como ordens junto de sua Majestade, e ele não resiste nunca às súplicas de sua Mãe, porque ela é sempre humilde e conformada à vontade divina.

Se Moisés, pela força de sua oração, conseguiu sustar a cólera de Deus contra os israelitas, e de tal modo que o altíssimo e infinitamente misericordioso Senhor lhe disse que o deixasse encolerizar-se e punir aquele povo rebelde, que devemos pensar com muito mais razão, da prece da humilde Maria, a digna Mãe de Deus, que tem mais poder junto da Majestade divina, que as preces e intercessões de todos os anjos e santos do céu e da terra? [5]

28. No céu, Maria dá ordens aos anjos e aos bem-aventurados. Para recompensar sua profunda humildade, Deus lhe deu o poder e a missão de povoar de santos os tronos vazios, que os anjos apóstatas abandonaram e perderam por orgulho [6]. E a vontade do Altíssimo, que exalta os humildes (Lc. 1, 52), é que o céu, a terra e o inferno se curvem, de bom ou mau grado, às ordens da humilde Maria [7], pois ele a fez soberana do céu e da terra, general de seus exércitos, tesoureira de suas riquezas, dispensadora de suas graças, artífice de suas grandes maravilhas, reparadora do gênero humano, mediadora para os homens, exterminadora dos inimigos de Deus e a fiel companheira de suas grandes grandezas e de seus triunfos.

29. Por meio de Maria, Deus Pai quer que aumente sempre o número de seus filhos, até à consumação dos séculos, e diz-lhe estas palavras: In Iacob inhabita - Habita em Jacob (Ecli 24, 13), isto é, faze tua morada e residência em meus filhos e predestinados, figurados por Jacob e não nos filhos do demônio e nos réprobos, que Esaú figura.

30. Assim como na geração natural e corporal há um pai e uma mãe, há, na geração sobrenatural, um pai que é Deus e uma mãe, Maria Santíssima. Todos os verdadeiros filhos de Deus e os predestinados têm Deus por pai, e Maria por mãe; e quem não tem Maria por mãe, não tem Deus por pai. Por isso, os réprobos, os hereges, os cismáticos, etc., que odeiam ou olham com desprezo ou indiferença a Santíssima Virgem, não têm Deus por pai, ainda que disto se gloriem, pois não têm Maria por mãe. Se eles a tivessem por Mãe, haviam de amá-la e honrá-la, como um bom e verdadeiro filho ama e honra naturalmente sua mãe que lhe deu a vida.

O sinal mais infalível e indubitável para distinguir um herege, um cismático, um réprobo, de um predestinado, é que o herege e o réprobo ostentam desprezo e indiferença pela Santíssima Virgem [8] e buscam, por suas palavras e exemplos, abertamente ou às escondidas, às vezes sob belos pretextos, diminuir e amesquinhar o culto e o amor a Maria. Ah! Não foi nestes que Deus Pai disse a Maria que fizesse sua morada, pois são filhos de Esaú.

31. O desejo de Deus Filho é formar-se e, por assim dizer, encarnar-se todos os dias, por meio de sua Mãe, em seus membros. Ele lhe diz : "In Israel hereditare - Possui tua herança em Israel" (Ecli 24, 13), como se dissesse: Deus, meu Pai, deu-me por herança todas as nações da terra, todos os homens bons e maus, predestinados e réprobos. Eu os conduzirei, uns com a vara de ouro, outros com a vara de ferro; serei o pai e advogado de uns, o justo vingador para outros, o juiz de todos; mas vós, minha querida Mãe, só tereis por herança e possessão os predestinados, figurados por Israel. Como sua boa mãe vós lhes dareis a vida, os nutrireis, educareis; e, como sua soberana, os conduzireis, governareis e defendereis.

32. "Um grande número de homens nasceu nela", diz o Espírito Santo: Homo et homo natus est in ea. Conforme a explicação de alguns Santos Padres o primeiro homem nascido em Maria é o homem-Deus, Jesus Cristo; o segundo é um homem puro, filho de Deus e de Maria por adoção. Se Jesus Cristo, o chefe dos homens, nasceu nela, os predestinados, que são os membros deste chefe, devem também nascer nela, por uma conseqüência necessária. Não há mãe que dê à luz a cabeça sem os membros ou os membros sem a cabeça: seria uma monstruosidade da natureza. Do mesmo modo, na ordem da graça, a cabeça e os membros nascem da mesma mãe, e, se um membro do corpo místico de Jesus Cristo, isto é, um predestinado, nascesse de outra mãe que Maria, que produziu a cabeça, não seria um predestinado, nem membro de Jesus Cristo, e sim um monstro na ordem da graça.

33. Além disso, pois que Jesus é agora mais do que nunca, o fruto de Maria, como lhe repetem mil e mil vezes diariamente o céu e a terra: "... e bendito é o fruto do vosso ventre", é certo que Jesus Cristo, para cada homem em particular, que o possui, é tão verdadeiramente o fruto e obra de Maria como para todo o mundo em geral. Deste modo, se qualquer fiel tem Jesus Cristo formado em seu coração, pode atrever-se a dizer: "Mil graças a Maria! Este Jesus que eu possuo é, com efeito, seu fruto, e sem ela eu jamais o teria". Pode-se ainda aplicar-lhe, com mais propriedade que São Paulo aplica a si próprio, as palavras "Quos iterum parturio, donec formetur Christus in vobis" (Gál. 4, 19): Dou à luz todos os dias os filhos de Deus, até que Jesus Cristo seja neles formado em toda a plenitude de sua idade. Santo Agostinho, sobrepujando a si mesmo, e tudo o que acabo de dizer, confirma que todos os predestinados, para serem conformes à imagem do Filho de Deus, são, neste mundo, ocultos no seio da Santíssima Virgem, e aí guardados, alimentados, mantidos e engrandecidos por esta boa Mãe, até que ela os dê à glória, depois da morte, que é propriamente o dia de seu nascimento, como qualifica a Igreja a morte dos justos. Ó mistério de graça, que os réprobos desconhecem e os predestinados conhecem muito pouco.

34. É vontade de Deus Espírito Santo que nela e por ela se formem os eleitos. "In electis meis mitte radices" (Ecli 24, 12), lhe diz ele: Minha bem-amada e minha esposa, lança em meus eleitos as raízes de todas as virtudes, a fim de que eles cresçam de virtude em virtude e de graça em graça. Tive tanta complacência em ti, quando vivias na terra, praticando as mais sublimes virtudes, que desejo ainda encontrar-te sobre a terra sem que deixes de estar no céu. Reproduze-te, portanto, em meus eleitos. Que eu veja neles com complacência as raízes de tua fé invencível, de tua humildade profunda, de tua mortificação universal, de tua oração sublime, de tua caridade ardente, de tua firmíssima esperança e de todas as tuas virtudes. És sempre a minha esposa tão fiel, tão pura e tão fecunda como nunca: que tua fé me dê fiéis, que tua pureza me dê virgens, que tua fecundidade me dê eleitos e templos.

35. Quando Maria lança suas raízes em uma alma, maravilhas de graça se produzem, que só ela as pode produzir, pois é a única Virgem fecunda que não teve jamais, nem terá semelhante em pureza e fecundidade.

Maria produziu, com o Espírito Santo, a maior maravilha que existiu e existirá - um Deus-homem; e ela produzirá, por conseguinte, as coisas mais admiráveis que hão de existir nos últimos tempos. A formação e educação dos grandes santos, que aparecerão no fim do mundo, lhe está reservada, pois só esta Virgem singular e milagrosa pode produzir, em união com o Espírito Santo, as obras singulares e extraordinárias.

36. Quando o Espírito Santo, seu esposo, a encontra numa alma, ele se apodera dessa alma, penetra-a com toda a plenitude, comunicando-se-lhe abundantemente e na medida que lhe concede sua esposa; e uma das razões por que, hoje em dia, o Espírito Santo não opera, nas almas, maravilhas retumbantes, é não encontrar ele uma união bastante forte entre as almas e sua esposa fiel e inseparável. Digo esposa inseparável porque, depois que este Amor substancial do Pai e do Filho desposou Maria para produzir Jesus Cristo, o chefe dos eleitos, e Jesus Cristo nos eleitos, nunca a repudiou, pois ela tem sido sempre fiel e fecunda.

MONTFORT, Luís Maria Grignion de. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Petrópolis: Vozes, 24a. Edição,1998, p.30-41.

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[1] Appellavit eam Mariam, quasi mare gratiarum (S. Antonino, Summa p.IV, tit 15, cap. 4, § 2).
[2] Ipsa est thesaurus Domini (Idiota, In contemplatione B.M.V.).
[3] Ver, entre outros, São Bernardo e São Bernardino de Sena, que S. Luís Maria cita mais adiante (141-142).
[4] Ver adiante a citação (no. 76).
[5] S. Agostinho, sermo 208 in Assumpt., no. 12.
[6] Per Mariam ab hominibus Angelorum chori reintegrantur (São Boaventura - Speculum B. V., lect. XI, § 6).
[7] In nomine tuo omne genu flectatur caelestium, terrestrium et infernorum (São Boaventura - Psalter. maius B. V., Cantic. instar "Cantici trium puerorum").
[8] Quicumque vult salvus esse, ante omnia opus est ut teneat de Maria firmam fidem (São Boaventura, Psalter. maius B. V., Symbol. instar Symboli Athanasii).

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